sexta-feira, 16 de junho de 2017

Variedades: Cartier-Bresson e a Avenida Paulista

No último domingo vivi uma experiência diferente na cidade de São Paulo. Apesar de já ter ido várias vezes à Avenida Paulista, desta vez, como estava com a turma do curso de fotografia, a proposta era exercitar um olhar mais curioso sobre a paisagem. No mesmo dia também fomos visitar a exposição com fotos de Henri Cartier-Bresson no Centro Cultural Fiesp. Pura inspiração!

Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP. Blog Carina Pedro
Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP.

Desde 2015, no mandato de Fernando Haddad, a Avenida Paulista passou a ficar fechada para carros aos domingos, permitindo que as pessoas passeiem a pé ou de bicicleta pela rua, assistam a performances de artistas, vejam o trabalho de artesãos e façam dali um ponto de encontro para se divertirem com amigos e família no final de semana. Para mim, o local e o dia não podiam ser mais propícios para fotografar, com muito assunto para as lentes!

O bacana dessa experiência foi perceber que apesar de ter uma certa preferência por fotografar composições em que elementos arquitetônicos estão em evidência, e a Avenida Paulista tem muitas edificações para isso, estar ali em pleno domingo, cheio de gente, me fez olhar com outros olhos para algumas cenas. Não pude de deixar de aproveitar o movimento intenso de pessoas em meio ao cenário urbano para fazer fotos de assuntos e ângulos diferentes do que estou acostumada. 

Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP. Blog Carina Pedro
Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP.

Enquanto isso, as imagens do francês Cartier Bresson me serviram de inspiração para trabalhar em preto e branco, o que também não costumava fazer. Na exposição que visitamos, vimos de perto fotos p&b dos anos 20 e 30, quando o fotógrafo era jovem e começou a registar cenas curiosas do cotidiano com sua máquina Leica em viagens por diversos países, incluindo Espanha, França, Itália, México e Cuba.

De família parisiense abastada, Bresson começou cedo a acumular vasto repertório cultural em viagens e estudos. Segundo o curador da exposição, apaixonado por pintura e desenho, o fotógrafo estava em busca de cenas casuais e improváveis, influenciado em parte pela estética surrealista que surgia na época. Também se preocupava muito com a geometria dos elementos retratados para que a imagem ficasse harmoniosa, conceito que inspira fotógrafos até hoje.  O resultado final impressiona pela beleza simples e sensível.

Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP. Blog Carina Pedro
Foto de Carina Pedro: Avenida Paulista, São Paulo-SP.

Para finalizar este post nada melhor do que entender o ofício pelas palavras do próprio mestre:

"A câmera fotográfica é para mim uma caderneta de esboços, o instrumento da intuição e da espontaneidade, o mestre do instante que, em termos visuais, questiona e decide ao mesmo tempo. Para 'significar' o mundo, é preciso sentir-se comprometido com aquilo que se recorta através do visor. Esta atitude exige concentração, sensibilidade, e um sentido de geometria. É com a economia dos meios e, sobretudo, com o esquecimento de si mesmo que se alcança a simplicidade da expressão." (Henri Cartier-Bresson)

Obs.: Para fazer as fotos na Avenida Paulista utilizei a câmera Sony NEX-F3, lente 18-55 mm, e tratei as imagens no Lightroom. Tem mais fotos deste dia no meu perfil do Instagram.

sábado, 10 de junho de 2017

Livro: o design de interiores de Ilse Crawford

Tem gente no mundo fazendo design de interiores da melhor qualidade e de forma muito inspiradora. É o caso da inglesa Ilse Crawford e do seu Studioilse em Londres. Neste post falo de algumas ideias de Ilse sobre a profissão, que encontrei no seu livro "A Frame For Life", também abordo por que motivo ela escolheu trabalhar na área e como tem encarado o desafio de colocar em evidência, no mercado atual, projetos que priorizam sempre o bem estar das pessoas.

Livro "A Frame For Life" de Ilse Crawford - blog Carina Pedro
Livro "A Frame For Life" de Ilse Crawford.

No livro "A Frame For Life" Ilse se apresenta como uma garota que desde muito cedo precisou ajudar a família, passando por diversos empregos, entre eles, vendedora, garçonete, cozinheira, etc. Mais tarde, fez faculdade de História, foi trabalhar como assistente em um escritório de arquitetura e depois como editora em revistas do ramo. Durante esses anos de experiências diversas, Ilse aprimorou seu olhar crítico. Cansada de ver inúmeras imagens de ambientes que pareciam perfeitos nas revistas, mas que não funcionavam tão bem na vida real, resolveu criar a sua forma de fazer design e abriu seu próprio estúdio em 2003.

No seu livro llse também comenta como a casa de sua família era procurada pelos amigos. Apesar de ser um lar modesto, lá imperavam a convivência, a liberdade e a diversão. Aspectos que ela valoriza até hoje quando desenvolve seus projetos no Studioilse, especialmente para espaços públicos, onde os interiores podem ser ainda mais frios e provocar atitudes artificiais nas pessoas que frequentam o local. Para Ilse, não é só a questão da escala que está em jogo (espaços amplos tendem a ser menos acolhedores), também deve-se levar em conta a iluminação, materialidade, janelas, conexão com a natureza, acústica, cheiros, etc. Todos esses elementos podem fazer as pessoas se sentirem melhor no ambiente e executarem suas atividades com prazer e eficiência.

Deve ser realmente incrível trabalhar com Ilse Crawford, que faz questão de ter uma equipe formada predominantemente por mulheres, com estímulo para se desenvolverem e criarem juntas projetos inovadores. O design do Studioilse busca engajar as pessoas fisicamente, emocionalmente e sensorialmente nos espaços. Para tanto, eles partem sempre das impressões das pessoas que vão viver no local, fazendo muitas perguntas como: quem vai morar ali? O que vão fazer no espaço? Como vão se relacionar com o prédio e com o entorno? Como vão se relacionar uns com os outros? Como o lugar pode melhorar o bem estar? Como podem se sentir engajados? Como pode se transformar ao longo do tempo? Como envelhecerá? Como se manterá? Só depois desse levantamento é que o time de Ilse inicia a intervenção.

Quem trabalha com design de interiores, segundo Ilse, precisa gostar de ouvir as pessoas e ser empático. Isso ajudará o profissional a antecipar necessidades, planejar e fazer escolhas acertadas desde o início dos trabalhos, garantindo a longevidade de um projeto, característica defendida pelo Studioilse, assim como a flexibilidade para mudanças ao longo do tempo. Após ser ocupado pelas pessoas, que dão vida ao projeto, é fato que os ambientes se modificarão para novos usos. Assim, o designer deve pensar em elementos atemporais e versáteis, mais do que se preocupar com tendências.

Em uma entrevista de Ilse Crawford para o arquiteto Edwin Heathcote, publicada no mesmo livro, também vem à tona a relação delicada entre arquitetura e design de interiores. Ilse diz que os profissionais das respectivas áreas deveriam colaborar um com o outro, desde o início de um projeto, mesmo que isso gere um conflito criativo. Cita o fato de renomados arquitetos, como Mies Van der Rohe e Le Courbusier, contarem sempre com designers de interiores parceiros, Lilly Reich e Charlott Perriand, respectivamente. Para Ilse, a vida comum é o que realmente deveria ser valorizado por esses profissionais. Observar as atividades do cotidiano e criar algo em torno dele é o que melhora a qualidade de vida das pessoas, mais do que obras espetaculares e icônicas.

Ilse Crawford nos passa uma mensagem inspiradora sobre criar ambientes com alma, sobre colocar o ser humano como prioridade em qualquer projeto, sobretudo, acreditar que o design de interiores é capaz de impactar a vida das pessoas positivamente, ao melhorar a qualidade de vida no trabalho, no lazer, na intimidade. Contratar o trabalho dos designers, portanto, não é algo supérfluo, banal, caro, como muitos podem pensar, afinal, como bem ressaltou, passamos muito tempo das nossas vidas nos interiores dos edifícios.

Quem quiser conhecer o trabalho de Ilse Crawford vai encontrar muita informação no livro "A Frame For Life", publicação muito bem acabada, com capa dura e imagens inspiradoras.  Existem outras obras publicadas disponíveis na Amazon Brasil, mas também não estão traduzidas. Na Netflix tem um episódio exclusivo e legendado com Ilse na série "Abstract: The Art of Design". Vale a pena!

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